terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Queer as Folk (Seriado)


Você pode não lembrar, mas há 10 anos atrás qualquer criatura que se aventurasse a acessar a internet ainda ouviria aquele barulhinho do modem conectando (sem mencionar o telefone maldosamente ocupado). Naquela época trevosa uma velocidade de 56kbps era luxo e mp3 um sonho distante e pesado. Essa grande Idade das Trevas assolou as conexões durante muitos anos, e muito sangue foi perdido até que chegássemos a esse requinte atual onde conseguimos até ver os e-mails pelo celular.

Pois bem, essa introdução serve pra pontuar algumas coisas interessantes. Hoje em dia um seriado pode ser baixado da internet sem muitos problemas... Todas as temporadas. E além disso, quando algo surge no exterior,  quase imediatamente surgem comunidades que falam sobre o que apareceu, fãs que legendam os episódios enquanto eles não aparecem... E querendo ou não, isso torna muito mais fácil a popularização e o acesso a estas maravilhas do entretenimento.

Talvez por isso, talvez pela ausência de uma televisão por assinatura, eu nunca realmente havia assistido ao seriado "Queer as Folk", apesar de saber de sua existência por ouvir falar. Foram 5 temporadas entre os anos 2000 e 2005, acompanhando a trajetória de um grupo de amigos homossexuais, suas aventuras e desventuras, em Pittsburgh / EUA.

Michael - um dos personagens principais.

Minha impressão inicial do seriado foi muito boa. Os personagens carismáticos, as tramas... Enfim, toda a primeira temporada realmente me conquistou. A loucura foi tanta que não descansei até assistir tudo, chegando ao final da série em algum tempo e horas e horas depois. Esse post, portanto, não é para apresentar Queer as Folk, e sim falar um pouco sobre algumas coisas que me deixaram interessado.

Inicialmente o que é bastante engraçado é a pouca presença de familiares dos personagens. Claro que não falo do carismático Michael (tenho um amigo parecido com ele) e da sua mãe Debbie... Mas vemos, por exemplo, uma vez a mãe de Ted; nunca vemos parentes de Emmet (apesar das frequentes histórias da infância); os familiares de Brian e Lindsay, com suas atitudes homofóbicas. Em comparação à vivência dos personagens, o que acontece a eles, parece haver uma lacuna.

Este vazio, no entanto, reflete a realidade de muitos gays. Infelizmente não é a exceção um homossexual ser expulso de casa, e principalmente quando se trata de alguém jovem (isso acontece relativamente com Justin no início do show). Nestes anos que estive na faculdade eu tive oportunidade de estudar algumas políticas públicas brasileiras, que inclusive prevêm esse tipo de situação e as situam dentro do âmbito da própria atenção à saúde. Alguns conceitos que são bonitos no papel e que custam a florescer - acredito eu, principalmente, devido à má qualidade dos recursos humanos envolvidos.

Brian e Justin

Quando o seriado vai chegando a seus episódios finais, vemos que há um claro clima de cansaço presente no roteiro, e nos próprios atores. Há algo em Queer as Folk que vai se perdendo ao longo do tempo de duração de suas histórias... Talvez a quinta e última temporada seja aquela que consegue recuperar um pouco do fôlego, mas ainda assim você fica com a sensação de que há muito mais a ser contado e explorado, e que acaba morrendo na praia.

Alguns temas importantes surgem como a questão do corpo, o cuidado com as DSTs, a questão de fidelidade no mundo gay, o casamento, religiosidade, o perigoso mundo das drogas, a heterofobia (personificada pelo maravilhoso Brian), adoção, crime de ódio contra indivíduos LGBT, entre outros. Se foi muito criticada pela sua ambiência sexual e cenas fortes, também você escolha a realidade ou o quadro bonito que muitas vezes é pintado nas novelas das emissoras disponíveis em nossas televisões.

Um outro tópico no qual a série toca, e que é facilmente um assunto de identificação para várias pessoas (e talvez eu mesmo) é a passagem do tempo. Na trajetória de Brian vemos toda a sua saga em relação à casa dos 30 e o avanço da idade, conforme chegam novas pressões sociais que confrontam seu jeito de ser. Nos meios gays ("alegres"), onde a batida da música eletrônica não pára, sobra pouco espaço para pensar nisso... E a série brinca com essa constatação e confronta o sentido do termo "comunidade" - afinal, há uma comunidade?

A turma

Com o final da série, o espectador recebe um pequeno fechamento, porém muitas questões ficam em aberto, potenciais, dormindo. A relação Brian e Justin, a questão família (como comentado), o futuro de Ted e Emmet, a vida no Canadá de Lindsey e Melanie, o que aconteceu com Rage, a vida de Michael e Ben com Hunter, e por aí se vai. São coisas que fazem pensar e supor que talvez existisse um desejo de que a série prosseguisse - o que não aconteceu, e não deve acontecer, mesmo que fosse em um filme.

Apesar de tudo, Queer as Folk é, pra mim, o show que mais se mantém fiel às questões da homossexualidade. Quebra o conceito vendido na televisão brasileira do homossexual masculino versus a bicha estereotipada, e abre realmente espaço para compreender o que acontece. A novela Insensato Coração (2011) parece ter retirado deste seriado muito do que pretende apresentar em seus personagens gays, a começar pela mãe com o bar - totalmente similar ao Dinner de Debbie, mãe de Michael.

Fica aqui a dica de um bom seriado, a quem se interessa pela temática homossexual.


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3 comentários:

Ornitorrinco Zen Mochileiro disse...

Seria interessante comentar/assistir/analisar também a série homônima britânica que foi modelo para a versão americana. Certamente a comparação entre as ausências e presenças de temas e personagens já renderia muita conversa. Fica a dica. :)

Tobias disse...

Exato... complementando o post acima do meu, acredito que o seriado que se refira seja o DANTE´S COVE. Fico com o QUEER, do qual sou realemente fã, mas enfim tem seu valor e merece ser vista para formação de opinião, descoberta e experimentada. Acho muito plástica, enquanto o Queer mais realista. Rafa, muita coisa a ser discutida, assunto para longas conversas tanto sobre o seriado quanto sobre o assunto. Mas o felicito pelo post, ótima escolha. Um abraço do Tobias.

dioi disse...

Engraçado, depois de anos resolvi baixa-lá para assistir com meu marido, ele nao conhecia, e conversando sobre a serie chegamos a conclusão de que, mesmo após 10 anos, ela continua extremamente atual. Sou super fã da serie e pesquisando sobre a mesma no google, achei esse blog com esse texto incrível e muito participativo das minhas idéias, realmente e a melhor serie qie retrata, fielmente, o universo gay. Infelizmente acho que nao teremos outra do tipo, mas rezo para que a tv brasileira chegue perto e esqueça o estereotipo.
Forte abraço

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