domingo, 1 de maio de 2011

Eu não quero voltar sozinho (2010)


Por indicação do meu amigo Marcelo (@aletrad), dirigi-me ao YouTube e assisti ao curta "Eu não quero voltar sozinho" (clique), escrito e dirigido por Daniel Ribeiro (@DanielRibeiro), produzido por Diana Almeida (@DiAlmeida). Embora a princípio eu não soubesse a respeito do que se tratava, o fator surpresa serviu apenas para me deixar - sem sombra de dúvidas, ainda mais encantado.

Percebe-se uma delicadeza e uma suavidade no curta que é pouco comum no que tenho visto em termos de produções nacionais. Quanto tocamos na esfera da homoafetividade então, não preciso nem comentar muito. O tema é abordado de uma forma que é doce, e realmente consegue aquecer o coração, diferente do que se tem acompanhado em novelas e filmes. Pra mim, é aqui que conseguimos sair da história com um sorriso e uma esperança que traz o desejo de sonhar.

A atuação dos atores é excelente. Guilherme Lobo (@GhiLobo) como o rapaz cego Leonardo; Tess Amorim (@TessCoelho) como a melhor amiga Giovana; Fabio Audi (@Fabio_Audi) como o novo estudante Gabriel; conseguem realmente tornar palpável a realidade de três colegas de escola que começam a trilhar os primeiros passos no campo dos sentimentos. Em uma entrevista, eles contam que tiveram a liberdade ao longo dos ensaios, de sugerir pequenas mudanças em falas e cenas, e que isso os ajudou a se sentirem envolvidos e num clima que foi necessário mais tarde para representar justamente o companheirismo dos colegas.

O que dizer, por exemplo, da cena em que Gi recebe a notícia de que Leo está apaixonado por Gabriel? Ou da expressão da atriz em pequenos momentos, como quando o melhor amigo pega no braço do outro ao invés do dela? Ou a naturalidade de Leo, a veracidade com que o vemos cego e chegamos a nos questionar se o ator realmente o é? E os gestos cuidadosos e a fala mansa de Gabriel?

O texto não força a barra, e não cai no erro daqueles personagens jovens tentando equilibrar em suas cabeças o peso de uma maturidade que não existe e não corresponde à sua idade. Também não vemos qualquer tipo de uso de trejeitos para "interpretar" uma pessoa possivelmente homo ou bissexual. E embora existam sim pessoas com trejeitos, é um alívio ver que eles não foram usados para simplesmente "marcar" ao invés de enriquecer a atuação.

O roteiro e o modo como este foi representado é um presente a tantos homossexuais, bissexuais e simpatizantes, que têm recebido pouco das artes visuais além de sexo. Em "Do começo ao fim", como comentei em outro post (clique aqui), temos cenas de nudez, sexo e um roteiro mal-aproveitado, que é incapaz de provocar em seus 90 minutos, o que "Eu não quero voltar sozinho" consegue com pouco menos de 17: empatia. Você imediatamente se identifica, torce, deseja e anseia pelos próximos passos!

Em um momento delicado, tanto no cenário político nacional, como na reflexão sobre as relações homoeróticas, este curta traz o que é importante ao coração: o amor ingênuo, puro. Entre os grandes questionamentos da comunidade LGBT como por exemplo o apego à imagem, o efêmero, a velocidade das relações, a descartabilidade, a ausência de modelos a seguir, sem falar nos problemas vividos por todas as vítimas de violência e preconceito, encontramos uma pausa para respirar.

E esse ar, é aquele que é mais vital: o ar do sentimento.

Como autor de histórias e inventor de personagens, realmente aprecio a forma como "Eu não quero voltar sozinho" é construído. Já nesse início de 2013 está sendo filmado um longa com a continuação da história, chamado "Todas As Coisas Mais Simples". Esta curiosidade boa reflete um ponto importante: nós, seres humanos, precisamos alimentar nossa alma com a água do encanto. E como iniciei dizendo, deixei o curta arrebatadoramente encantado por ele - suas músicas, suas cores, sua sutileza.


Curta: Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010)

Se você gostou de Eu Não Quero Voltar Sozinho, conheça também a história de Cidade do Anjo - um livro adolescente com tema homoafetivo: clique aqui.

6 comentários:

Marcelo Sanches disse...

Nossa, perfeito o jeito que vc escreve. Seus comentários são ótimos. Bom saber que valoriza minhas indicações. =)

Angelo Ribeiro disse...

Lindas Palavras!!!!
A emoção que sentimos ao olhar o curta é algo realmente inexplicavel! A naturalidade a qual é abordado, traz a nossa frente uma esperança, esperança de que os PRÉ -CONCEITOS hoje impostos por uma sociedade mediocre pode sim terminar, ou pelos menos diminuir.
Cabe a nos a divulgação deste video, para os criadores da obra que possam ter incentivos, e o longa possa realmente sair dos planos e vir a ser algo concreto...

Arthur Ramos disse...

Rafael, como sempre consegue traduzir em palavras sentimentos que nem mesmo nós conseguimos entender em nós mesmos. Sua crítica deliciosamente apaixonada pelo curta valoriza muito todo o esforço de sua produção e revela sim o que sentimos ao assistir essa história envolvente. "Eu não quero voltar sozinho" é o tipo de história que inspira, é o tipo de história que é muito verossímel, que poderia acontecer com qualquer um de nós (homo, bi, hétero... não importa)... é o tipo de história que gostaríamos que acontecesse! Parabéns. Eu sou um fã babão das suas postagens!!

Blog do Khalil disse...

Uma coisa bem importante citada o homo - bissexual, foi demonstrado de forma sutil e agradável, em ''eu nao quero voltar sozinho'', a pureza do amor, o ciúme ocasional da amiga, percebemos que o 'amor' dela por 'Leo', é um amor de irmão, acho que seria bem interessante que tivesse a 2ª parte desse curta! um abraço a todos!

Gustavo Tanus Martins disse...

É Realmente esse curta metragem vale muito!!!!
Uma serenidade e simplicidade incríveis para trabalhar um tema tão fundamental.

Valew a dica!!!!

Josemar Dórea disse...

Belíssimo. Além da leveza da abordagem, o que mais impressiona é a excelente atuação dos atores. Perfeitos! A sensação é: já acabou? Quero mais!

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