quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Acontece
O tarô de Marselha tem uma lâmina que se chama "a roda da fortuna". Ela mostra uma roda que gira sem parar, e cujo o significado (em linhas gerais) é: tudo passa. Ora se está em cima, ora se está embaixo. A vida é permeada de acontecimentos que nos pegam de surpresa, alguns causados por nós, outros por motivos que costumamos não conhecer.
Pessoalmente, eu acredito que as situações que se apresentam para nós descrevem um reflexo daquilo que precisamos ainda aprender. São mensagens que tentam informar que este modo de viver, de enfrentar, de lidar com aquilo, não está sendo a melhor maneira... Ou que simplesmente é preciso mudar.
É muito comum ouvir relatos de pessoas que passaram por grandes riscos de vida, experiências de quase-morte, doenças ameaçadoras, ou ainda de estados de êxtase, que contam que depois disso se tornaram pessoas "diferentes". Essa mudança que se associa a um grave e importante acontecimento (seja ele qual for) é comumente referida também como algo que "valeu a pena", ou que trouxe ganhos.
Podemos olhar para tudo com o coração vazio, e acreditar que não há sentido para as coisas. Ou podemos começar a tentar decifrar o que nos tira o bem estar, e empreender um esforço para transformar algo em nossa personalidade.
Mudar, transformar, tudo isso é difícil. Esbarramos em nossas fraquezas, nosso lado pequeno... Não sabemos por onde começar, e nem por onde ir. Às vezes sofremos diante de questões que nos abalam o coração, e percebemos uma repetição sem que possamos parar. E é nesses momentos que é útil buscar ajuda.
Porém, buscar ajuda requer estar aberto à ajuda.
Abrir o coração pode ser um passo inicial muito benéfico para começar a atrair não apenas mensagens que nos informam, mas situações que ajudam a curar o sofrimento em nós diante daquilo que é necessário mudar. É quando começam a surgir coisas novas que aos poucos vão montando um quebra-cabeça que conta devagar o que precisamos saber. Surgem os insights, revelam-se emoções não-percebidas, motivações, oportunidades.
O giro da roda da fortuna nos mostra que a vida é movimento. Onde quer que você sinta que tenha parado, ou falhado, não se desespere: se o seu coração assim desejar, é possível embarcar na mudança, e fazer um novo amanhã.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Entrevista com Naturólogo Rafael Fonseca
Por Josemar Dórea
Blog Insight Filosófico
Mens sana in corpore sano. Esta clássica citação latina do poeta romano Juvenal (Roma, entre 55 e 60 a.c) que no Brasil se popularizou como Mente sã, corpo são, define um pouco a ideia que a Naturologia propõe: uma nova ciência que busca através de métodos naturais, a saúde e a qualidade de vida do ser humano de forma equilibrada com o meio que vive.
No Brasil a Naturologia está “engatinhado”, mas com grande perspectiva de expansão haja vista a necessidade crescente de todo ser humano em almejar o seu bem estar.
Na busca do conhecimento, essência do Insight Filosófico, agradeço ao Naturólogo Rafael Fonseca, que concedeu esta entrevista, por e-mail, a qual você confere logo abaixo.
1ª [Josemar] A Naturologia é uma ciência ou um conjunto de técnicas alternativas para fins terapêuticos?
[Rafael] A Naturologia nasceu como uma nova ciência. Ainda não existe um conceito fechado e há muita discussão, nestes quase 15 anos de existência. Uns defendem como a ciência que estuda métodos e conhecimentos naturais antigos e novos para o cuidado em saúde. Outros, como eu, tendem a vê-la como uma ciência que se dedica a conhecer a natureza do objeto de estudo através das relações que acontecem em suas várias dimensões (biológica, psíquica, social, energética, espiritual, etc.), para chegar à prática natural mais adequada a ele e melhorar sua saúde. De qualquer modo, antes de um conjunto de técnicas alternativas (que seriam as “ferramentas”), existe um novo tipo de proposta que se considera “holística” ou “integral”.
2ª [Josemar] Há alguma relação com a Psicologia?
[Rafael] Lembro uma das aulas de Filosofia logo no primeiro semestre do meu curso em que discutíamos sobre a origem da Naturologia. Por um lado, há o inegável legado biomédico que nos trouxe conhecimentos tais como anatomia, fisiologia, biologia, farmacologia, etc. Por outro lado, os estudos psicológicos também estão presentes na formação e são necessários principalmente para entender o funcionamento da dimensão psíquica. Mas ainda há algo realmente novo em se tratando de Naturologia, que inclui a passagem por áreas como antropologia, sociologia, espiritualidade. Há conversa durante as sessões, mas não é o foco do trabalho, e não se destina estritamente à exploração dos processos mentais e comportamentais.
3ª [Josemar] Quando uma pessoa deve procurar um Naturólogo? Como é a consulta e o tratamento?
[Rafael] Sempre que existe uma perda do bem estar. Quando você sente um desconforto para lidar com alguma área da sua vida, você pode buscar a ajuda de um Naturólogo. A consulta é chamada por muitos de “sessão de interagência”. É realizada uma avaliação do indivíduo por meio de entrevista, observação ou aplicação de uma prática avaliativa. Essa avaliação é o momento de conhecer a pessoa naquelas várias dimensões. Durante os atendimentos são realizadas as práticas mais adequadas àquela pessoa, e se inicia uma jornada para desvendar novos meios de lidar com o motivo da consulta, novas associações que permitam entender por que se reage a ela da forma atual, e fornecidos estímulos ao organismo para que se fortaleça e se transforme.
As práticas que o Naturólogo usa para tratar e avaliar variam muito, mas em minha formação aprendi um pouco de: aromaterapia, arteterapia, cinesiologia, cromoterapia, fitoterapia, florais, gemoterapia, geoterapia, hidroterapia, massoterapia, musicoterapia, radiestesia, reflexoterapia. Além disso, conceitos de Medicina Tradicional Chinesa, Ayurveda, Xamanismo e Medicina Antroposófica. Não utilizo todas, assim como não conheço todas as práticas naturais e sistema de Medicina tradicionais do mundo.
Ao longo das sessões se tenta compreender a mensagem por trás daquilo que afeta o bem estar da pessoa. É um ótimo recurso em saúde que complementa os tratamentos tradicionais, e por vezes os potencializa – o Naturólogo tem uma visão ótima para trabalhar em equipe e identificar as relações das informações provenientes dos colegas profissionais.
As consultas costumam durar 1 hora, numa frequência semanal, e se estender pelo período necessário.
4ª [Josemar] A Naturologia é reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde)? E no Brasil?
[Rafael] O termo “Naturologia” tem uma origem genuinamente brasileira. Em outras partes do mundo existe a Naturopatia, que está mais próxima da abordagem biomédica e por isso em alguns países é uma especialidade médica a rigor. A Naturologia, porém, não é um mero conjunto de práticas naturais e conhecimentos tradicionais de saúde que resgatam a sabedoria milenar e popular, ela também considera os aspectos multidimensionais e se preocupa com a questão da energia.
As ferramentas que a Naturologia faz uso, as práticas naturais, são defendidas há muitos anos pela Organização Mundial de Saúde. No Brasil, em anos mais recentes, o Ministério da Saúde criou o plano PN-PIC que é a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, que tem por objetivo levá-las ao SUS. Por isso, em teoria, qualquer indivíduo no Brasil hoje pode exigir um tratamento alternativo ou complementar, e recebê-lo por direito.
A OMS também defende o resgate e o estudo das Medicinas Alternativas e Complementares (MAC), que incluem as já citadas e outras.
O reconhecimento da profissão de Naturólogo em todo Brasil tem sido uma luta constante dos estudantes e profissionais formados na figura da Associação Brasileira de Naturologia, assim como a Associação Paulista de Naturologia – ABRANA e APANAT respectivamente. A nível de saúde pública, porém, já há muitos municípios com Naturólogos inseridos no SUS por meio do reconhecimento local ou estadual.
5ª [Josemar] Quais dicas você daria para lidar com a ansiedade, estresse e as angústias do cotidiano?
[Rafael] Eu acredito que é essencial voltar a si mesmo. Estabelecer uma conexão com a voz intuitiva que reside em cada um de nós, o lado não tão lógico de nossa essência... Ele é capaz de dar muitas respostas. O relaxamento, a meditação, o trabalho com arte, a leitura de boas histórias... Todas são formas de ajudar o campo emocional a entrar num estado mais calmo, liberando as tensões, e deixando novas informações fluírem.
É muito importante também treinar a si mesmo, internamente, para começar a identificar quais são as situações que desencadeiam a ansiedade, o estresse e a angústia. O que é tão importante pra mim a ponto de mudar o meu humor? – essa é uma pergunta interessante de se fazer. Mas é preciso ter coragem para aceitar a resposta, e ser honesto consigo.
Outra dica muito importante é descobrir que tipo de coisas você tem vontade de criar – as atividades onde sua criatividade se manifesta e você sente que consegue ser útil, contribuir. Os seres humanos são essencialmente criadores e criativos, e se aproximar disso é uma forma de focar no presente e estar aberto aos resultados, além de trazer o sentimento de realização.
6ª [Josemar] Além de Naturólogo você também é escritor. O que propõe o seu livro Sagrado Coração?
[Rafael] Eu tenho verdadeiro amor por escrever, mas a maioria das minhas histórias ainda está guardada. Sagrado Coração é o segundo de uma série de 3 livros focados na vida de um personagem chamado Anjo – que é um garoto comum, que se vê diante de questões sobre relacionamentos, sexualidade, espiritualidade, e outros. Atualmente estou revisando o primeiro livro que escrevi há cerca de 8 anos. O tema deste segundo livro eu diria que são as decisões que precisamos fazer no início da vida adulta, especialmente aquelas que dizem respeito a quem somos e o que vamos fazer do que somos. É uma história que convida a refletir sobre o sofrimento, e sobre o que é possível fazer a partir dele.

Rafael Ayrton Lucena Fonseca é Naturólogo,
formado pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL.
formado pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL.
Também é escritor.
domingo, 11 de setembro de 2011
O Sentido da Vida
"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."
(Fernando Pessoa)
O ser humano é criativo por natureza - quer se considere aqui uma visão científica ou uma visão espiritual. Somos criaturas que desde o início elaboramos ferramentas, criamos sinais e símbolos para comunicação, adentramos o campo da resolução de problemas, e enfrentamos o mundo e os séculos enchendo o planeta de coisas que vão desde o fogo até as teclas do computador em que escrevo agora.
A sociedade em que vivemos, porém, não nos ensinou muito sobre o sentido da vida. Não estamos acostumados a passar os dias imaginando por que motivo ou razão estamos pisando nesse mundo. A maior preocupação do indivíduo ocidental dos dias de hoje é encontrar um bom emprego, e elaborar uma série de coisas para sua vida como um bom carro, uma boa casa, um bom companheiro e bons filhos.
Ainda assim, em algum momento da vida, mais cedo ou mais tarde, estaremos diante dessa questão que faz parte da nossa natureza. A questão que incomoda porque é também a questão que lembra que não somos fisicamente infinitos: "para quê vivemos?".
A verdade é que todo ser humano tem necessidade de criar. Se somos uma imagem de Deus (o grande Criador), ou não, o que é fato é que temos um espírito criador. Todo indivíduo nasce com ânsia de "ser" - ser humano. E quantas pessoas vivem suas vidas, remando um barco para um destino cada vez mais longe daquilo que elas sempre quiseram do fundo do seu ser? É comum que na meia-idade, aconteçam as famosas crises que alertam sobre o resgate desses caminhos antigos.
Importa (e muito) descobrir quem você é e o que você se sente maravilhoso em fazer.
Uns adoram escrever, outros amam pintar, há pessoas que estudam muito, e há pessoas que cozinham e amam aprender receitas. Tem gente que dança, gente que canta, gente que constrói casas, gente que limpa casas e gente que administra indústrias. Existe tudo que você possa imaginar nessa mundo... E por isso todo mundo tem uma coisa especial, aquilo que faz o coração se sentir realizado.
Na vida você pode viver em busca do prazer, e se satisfazer aqui e ali, numa compra, num momento. Mas nada te fará esquecer do dia ou dos dias em que você se sentir realizado e não apenas satisfeito.
Realização implica encontrar o sentido da sua vida, aquilo que você é, aquilo que veio fazer nessa passagem por este mundo. Ao se aproximar disso você se aproxima de si mesmo (Self), e ativa energias criativas que inclusive melhoram a sua saúde. E então você começa a se afastar da tristeza, da angústia, da falta de disposição. Porque sentir a que veio, é sentir vontade de viver.
Vontade de viver, e não apenas sobreviver.
Quando nos sentimos vivos e encaixados, com uma perspectiva, sentimos que contribuímos para a História desse mundo. Não é incomum ouvir alguém dizer que tem uma sensação de querer fazer algo "grande" ou "deixar uma marca"... Isso também é um sentimento que vem desta necessidade tão humana.
Se você é um cuidador em saúde, é importante pensar sobre isso. Carl Gustav Jung dizia que o terapeuta não pode guiar além do ponto em que ele chegou... Portanto, comece por você e observe o que você pode ajudar para que o outro se descubra. Quantos projetos comunitários de música, esporte, exercícios, revitalizam a vida de muitos? Concedem novo ânimo - anima (alma).
O vídeo abaixo é de uma exposição chamada "7 bilhões de outros" do fotógrafo e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand. Ele visitou 78 países em cinco anos e reuniu 5.600 entrevistas de homens e mulheres respondendo 40 questões relacionadas a vida, morte, amor e questões cotidianas. Compartilho aquele que fala sobre o tema deste texto.
Desejo que você encontre o sentido da sua vida, e que ao dar o melhor de si, possa melhorar o seu mundo... O nosso mundo.
7 Bilhões de Outros: O Sentido da Vida
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
A Naturologia que queremos
"Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e [agora] sono."
(Clarice Lispector)
Diante de muitos silêncios, diante de muitos vazios... Quando as coisas parecem seguir e não seguem. Nos momentos em que ouço histórias de sucesso ou de desesperança. Sempre me sinto diante da mesma pergunta: "será que é essa a Naturologia que queremos?".
Não é de hoje uma conflituosa luta entre conformidade e inconformidade entre os Naturólogos e estudantes. Permeando a defesa de um ideal, ou batalhando nas linhas da prática e do pão nosso de cada dia, a ausência de posicionamentos e de encanto me incomoda sempre quando recebo suas visitas - seja numa reflexão pessoal, seja numa história de vida de um colega aqui ou ali.
É a falta de participação, uns dizem. É a falta de mobilização, dizem ainda outros. Que não há união, ou que não há cada um fazendo sua parte. No entanto quando nos vemos diante de tantas outras situações problemáticas onde familiares se ajudam, amigos se ajudam, colegas se ajudam... Para mim, brilha cá uma estrela inversa: a da desmotivação.
Para nós, a despeito de quantos seguem o caminho do cuidado focado na dimensão física dos sinais e sintomas, ou a despeito de quantos se esforçam na visão integral e holística, sinto que há sempre uma falta. Falta o ânimo alegre da criança, que se sente capaz de mudar o mundo. E falta também um incrível estudo a respeito de como a vida acontece.
Diante dos sinais de que tudo está trancado e estagnado, eu sempre me sinto diante da mesma pergunta: "será que é essa a Naturologia que queremos?".
Será que é essa Naturologia que nos sentimos nervosos e eufóricos por defender, por acreditar. Será que é essa Naturologia que merece ser divulgada, registrada, aprovada por Lei e vendida? Será que é ela que vai honrar os sonhos de todos aqueles que viveram anos de estudo, na esperança de trazer um novo tipo de tratamento à saúde - seja dos homens, dos animais, dos ambientes, do que seja?
Eu não acredito na obrigação.
No meu pequeno silêncio, a Naturologia que eu quero ver nascer é aquela capaz de transformar o homem. De ajudá-lo a ver qual mensagem sua vida está lhe trazendo, diante dos sinais e sintomas que acontecem em seu corpo, mas também em seu dia a dia, no sabor dos acontecimentos, das relações, das emoções, das energias. Aquela que inclui, e que não tem pretensão de furtar o trabalho de outros terapeutas e profissionais. Aquela que harmoniza e que dialoga.
Uma proposta nova, uma proposta eficiente.
Mas acima de tudo... Uma que faça meus olhos brilharem.
Se não, melhor que esteja como está.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
A Rede Social
O conceito de rede social não é novo, de fato tem se familiarizado há alguns anos já com o advento do orkut no Brasil. A proposta era reunir amigos, fazer novas amizades, estabelecer contatos e mostrar na Internet um pouco mais a respeito de quem você é. Quase ao mesmo tempo, os comunicadores instantâneos sofreram constantes aprimoramentos aliados ao aumento do acesso à rede através da Banda Larga, abandonando lentamente as conexões discadas (e seu icônico "barulhinho" do modem).
Torça-se o nariz ou não, fato é que as redes sociais mudaram algumas coisas do nosso cotidiano.
Assim como antigamente era comum o envio de cartas, hoje o tempo de uso da Internet aumentou consideravelmente. A ComScore revelou recentemente que o Brasil é o país com o maior número de internautas da América Latina. Mais: uma pesquisa realizada pelo Ibope Nielsen em 41 países revelou que o nosso o Brasil está em primeiro no tempo em que as pessoas permanecem conectadas com uma média de 45 horas por mês (o que equivaleria a quase uma hora e meia por dia). Além disso, 86% dos usuários brasileiros acessam redes sociais quando utilizam a Internet.
A rede social é um conjunto de interações sociais que ligam as pessoas o redor do mundo através da Rede Mundial de Computadores. O avanço da tecnologia permite que você possa ler este site, por exemplo, em seu celular; num tablet conectado a alguma rede disponível, ou no conforto do lar (em alguns casos mesmo no banheiro de sua casa) usando um computador pessoal. Permite também que você possa enviá-lo a seus amigos (compartilhando) e escrevendo comentários (que eu adoro ler).
Estudos recentes da área da psicologia têm se debruçado sobre o que os perfis sociais revelam sobre as pessoas. A grande descoberta (talvez um pouco óbvia) é que o tipo de interação, fotos, e troca, tendem a salientar traços da personalidade do usuário. Aparentemente inocente, esta notícia no entanto pode representar que o seu perfil pode vir a ser cada vez mais requisitados em seleções de emprego, e que "nem tudo que reluz é ouro".
O que por um lado contribuiu para uma nova troca de informações, por outro, traz à tona desafios humanos conhecidos.
O estabelecimento de laços na rede virtual por vezes reflete a necessidade de aceitação. O grande "catch" da rede social é que a Internet fornece um ambiente relativamente controlado e seguro, onde o usuário pode lidar com suas inseguranças e fragilidades selecionando o tipo de informação ou "imagem" que deseja transmitir para o outro. Não raro grupos são formados entre pessoas que não se conhecem na realidade.
Ao longo do tempo, porém, as pessoas costumem deixar escapar traços reais e não-selecionados para sua imagem virtual. Talvez um reflexo disso seja o fenômeno de troca das redes: no ano passado o uso do Facebook no Brasil cresceu mais de 200%. Ao mesmo tempo, diversos usuários já migram para grupos como o Google+ e outras redes temáticas específicas.
A proximidade nas relações acarreta inevitavelmente o surgimento de emoções por vezes indesejadas tais como tristeza, raiva, mágoa, insatisfação, indignação, sentimentos de traição, depreciação, etc.
Numa sociedade onde a tristeza e a melancolia se tornaram doenças, nada mais "natural" que se queira deletar tudo aquilo que não gere satisfação durante o máximo de tempo possível - isso, claro, inclui as relações sociais virtuais.
Ainda que os benefícios da informação, da tecnologia e do âmbito profissional, sobressaiam-se, os usuários de Internet ainda precisam aprender a lidar com toda a gama de novas e estranhas relações e os efeitos que elas trazem. Acredito que nos próximos anos nos serviços de saúde e cuidado mental, as questões relativas à adição à Internet, ou aos impactos da "identidade virtual" própria e alheia e seus efeitos sobre a vida "real", tendem a aumentar e gerar um novo tipo de demanda e oferta de serviço (inclusive no campo da saúde pública).
A Academia Americana de Advogados Matrimoniais, revelou recentemente que um em cada cinco divórcios envolve diretamente ou indiretamente o Facebook. Aliás, o uso do Facebook. Essa é mais uma prova de que nossas relações estão mudando, trazendo novas questões, mas os sentimentos envolvidos e gerados permanecem quase os mesmos.
Sem as cartas, telegramas, ou usando e-mails e mensagens privadas, "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais" como cantava Elis.
Quem é você na Internet?
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Sobre Saúde
"Em geral, nove décimos da nossa felicidade baseiam-se exclusivamente na saúde. Com ela, tudo se transforma em fonte de prazer."
(Arthur Schopenhauer)
A Organização Mundial de Sáude (OMS), define saúde como "completo estado de bem estar físico, mental, e social e não a mera ausência de doença ou enfermidade". Esta abordagem deu origem a um termo que às vezes é citado por alguns profissionais ou publicações: bipsicossocial. É uma tentativa de associar três dimensões do indivíduo, levando-as em consideração no que se refere a um estado de ser saudável.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem sua estrutura em concordância com o conceito da OMS. O SUS procura ofertar um atendimento integral aos seus usuários. A rede de saúde pública inclui desde as Unidades Básicas de Saúde (UBS - antigos "postos de saúde"), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), até hospitais entre outros. Diversos programas se esforçam na tentativa de ofertar ao cidadão brasileiro um atendimento de saúde que vá além do físico e permeie também o mental e o social.
Uma das mais recentes estratégias utilizadas pelo SUS foi a implementação do Plano Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). Ele oficialmente incluiu na possibilidade de tratamentos ofertados a homeopatia, a fitoterapia, o termalismo, entre outros. Portanto, teoricamente, qualquer usuário tem direito de receber um tratamento complementar ou alternativo, basta solicitar o encaminhamento e ter consciência de que isso é de fato um direito que honra o princípio ético de autonomia.
O motivo de estar falando sobre isso é que a concepção de saúde vem sofrendo questionamentos e se modificando ao longo do tempo. Na antiguidade os seres humanos entendiam a saúde como fruto da harmonia com o ambiente, com os deuses, e ao longo dos séculos os tratamentos sempre estiveram de acordo com as concepções do que era saúde e doença em seu tempo. Atualmente, nossa sociedade ocidental, não é diferente.
A concepção biomédica, foi aquela que buscou a causa de doenças nas dimensões físicas, anatômicas, fisiológicas. A medicina se tornou uma profissão que focou na especialização do médico em áreas do conhecimento, em catalogar as doenças, criar tecnologias eficientes para exames clínicos, e fármacos necessários. Graças às pesquisas médicas, muitas vidas foram salvas, e caminhos foram abertos.
No entanto, a medicina não conseguiu ainda explicar satisfatoriamente o que de fato origina algumas doenças, e diante de enfermidades de natureza crônica, nem sempre é capaz de curar. Igualmente, são famosos os atrasos de consultórios, ou então as consultas relâmpago, onde nem sempre o médico dispõe de um olhar cuidadoso sobre seu paciente. Mesmo com as exceções óbvias, o desconforto do paciente em relação ao médico ainda é uma realidade em muitos casos.
Na equipe de cuidado e atenção à saúde, não é raro haver uma diferenciação hierárquica clara entre os profissionais que a compõem - o que gera desconforto entre colegas. Desde a questão salarial, até certos tipos de postura, transitando também pela questão da "posse" do paciente sob o prisma unicamente biomédico, às vezes levando menos em consideração as anotações e capacidades de enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, educadores físicos, naturólogos, osteopatas, quiropratas, entre outros.
Nas últimas décadas as pessoas começaram a buscar o entendimento do motivo de passarem por determinadas doenças, ou ainda o resgate de práticas antigas e complementares de tratamento (algumas por sinal, sem pesquisas científicas atreladas). Além disso, buscaram também por uma postura humanizada - um tipo de cuidado acolhedor e atencioso, sem pressa, e atento às singularidades e especificidades.
A despeito do conhecimento sobre a genética que tende a aumentar e propiciar avanços maravilhosos, os avanços tecnológicos não sanaram a necessidade humana de ter um cuidado humano. Por sinal, um dos programas do SUS inclui a "humanização da saúde" no Brasil. Nesse sentido, um mal atendimento pode e deve ser denunciado em órgãos como a promotoria pública, independente do serviço que tenha sido fornecido ao usuário da rede pública de saúde.
Para a naturologia, a saúde transcende as três dimensões da OMS. Ela envolve questões de todas as ordens: física, mental, social, mas também emocional, energética, etc. O naturólogo é o profissional que estuda as relações e os impactos que cada uma dessas dimensões têm entre si e sobre a saúde do indivíduo (o nosso "interagente"). É um estudo criterioso e atento sobre a natureza do indivíduo naquele momento de sua vida, o sentido que está tomando, além da mensagem que está trazendo.
Durante o primeiro dia de aula deste semestre de 2011-2, na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), tive o prazer de realizar uma palestra sobre o uso da arte para o cuidado em saúde - arteterapia. Um dos alunos, um médico aposentado carioca, comentou que a seu ver, da altura de seus anos de experiência, a medicina carece da naturologia como o ser humano precisa do oxigênio para sobreviver. Há, segundo ele, uma complementaridade e um ganho para ambos os lados.
Não posso deixar de concordar. O naturólogo enriquece seu atendimento com a colaboração do médico e os exames clínicos, assim como o médico pode enriquecer seu tratamento com os apontamentos diferenciados fornecidos pelo naturólogo. Uma relação que tem tudo para dar certo, resultando no ganho principal das pessoas que buscam uma saúde melhor. (sem esquecer ainda como o trabalho transdisciplinar com todos os colegas pode ser frutífero e maravilhoso).
De qualquer forma, é interessante compreender que a saúde envolve o bem estar e também o prazer de viver, de realizar. Os momentos difíceis e as desarmonias também fazer parte da saúde, e colaboram para o crescimento e amadurecimento do ser humano - apontam caminhos. Cada pessoa, cada indivíduo, tem seus parâmetros e modos únicos de vivenciar o processo de saúde e o processo de doença. E isso precisa ser levado em consideração para seu tratamento, por qualquer um dos profissionais de saúde os quais necessite recorrer.
Há coisa mais gostosa do que se sentir cuidado? De ter um olhar sobre si, uma indicação do que é mais apropriado pra si? Contar sobre sua vida, e conseguir começar a perceber como as coisas se relacionam com sua saúde e desvendar o que é possível fazer?
Por outro lado, como é desprazeroso sentir que você não recebeu a atenção ou consideração que queria - seja esperando demais, seja recebendo uma indicação que equivale para qualquer um, ou a ausência de uma palavra de conforto (principalmente nos momentos de maior fragilidade).
A saúde é possível em todas as fases e em todos os estados, independente das condições do indivíduo. Ainda que sob o domínio da doença física, é possível encontrar o prazer e a capacidade de enfrentar as demandas da vida. Ademais, a busca por uma melhor saúde que transcenda o físico, pode levar a jornadas de conhecimento sobre si, sobre o mundo, e sobre transformação.
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