sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Trilogia Wake



Você está em uma sala e uma pessoa começa a dormir ao seu lado. Assim que ela começa a sonhar você tem aquela sensação... Começa a perder o controle sobre o corpo, os dedos ficam curvados, e leves espasmos te percorrem até que tudo fica escuro. E ali está você: tragado para mais um sonho, como expectador. Observando enquanto o protagonista pede sua ajuda e você nada pode fazer.

Esse é o estranho dom que Janie Hannagan - a protagonista da trilogia - revela possuir. E com isso somos levados a uma narrativa sempre no presente, que alternas os momentos de vigília e sonhos interessantes que são carregados inclusive de simbolismo.

Por indicação da minha prima Mônica Lucena (uma apaixonada por livros), eu tive a grata surpresa de poder saborear esta história. Publicada no Brasil pela Editora Novo Século, a história é dividida entre três livros: Wake: Despertar, Fade: Devanecer, e Gone: Desaparecer. A autora, Lisa McMann, revelou recentemente que os direitos da saga foram comprados pela Paramount para a eventual produção de um filme, e no momento não há planos de incluir novos volumes a Wake.

Pessoalmente, quando me deparo com livros de capa preta e uma imagem bonita no centro, fico sempre com receio de estar diante de um tipo de cópia de Crepúsculo. Esse com certeza não foi o caso.


Wake: Despertar (2008)


Aqui somos apresentados aos personagens centrais. É uma história leve e muito interessante, mas de início demora algumas páginas a realmente prender a atenção do leitor. Assim que prendeu a minha, porém, li o livro em uma tarde.

Uma das coisas que me chamou a atenção foi o tempo presente na narrativa, e também a alternância de fontes para mostrar os momentos em que Janie está no sonho de alguma pessoa. Também, não espere aqui uma leitura cheia de detalhes, é um convite saboroso à imaginação com os elementos necessários à contar aquilo tudo.

A atmosfera de pobreza, de dificuldades com a mãe alcoólatra, o interesse amoroso (Cabel) que também foi ferrado, a amiga que às vezes aparece... E todas aquelas questões sobre como nos sentimos diante das dificuldades, entram no meio do roteiro que lembra um tipo de investigação.


Fade: Devanecer (2009)

O segundo livro é onde realmente vemos toda a ação. Janie começa a treinar o uso de seu dom, e utilizá-lo em benefício das outras pessoas. Os resultados disso são incríveis, ao mesmo tempo em que um leve desconforto começa a surgir no momento em que tudo vai ficando mais difícil de voltar ao normal (Janie precisa de um tempo pra recuperar os sentidos quando sai de sonhos intensos).

Duas personagens roubam a cena em alguns momentos: a chefe do Departamento de Narcóticos e a Srª Stubin - uma apanhadora de sonhos como Janie. São elas que vão provocando em Janie um tipo de questionamento sobre família, sobre carinho, e sobre o que realmente vale a pena. Os momentos em que a Srª Stubin aparece nos sonhos de Janie te levam a torcer por ela.

Esta história envolve uma investigação policial onde a personagem principal ajuda com sua capacidade de entrar em sonhos. O desfecho, embora meio previsível, é muito interessante. A cena da festa é muito bem escrita, e merece destaque.


Gone: Desaparecer (2010)

É interessante como ao longo dos livros a escrita de McMann vai ficando mais detalhista e consegue te colocar no ritmo exato dos personagens, do que estão fazendo, pensando ou sentindo (e sonhando, claro). Eu preciso dizer que este volume é o mais difícil de digerir, não pela escrita que é fluida e prende a atenção, mas pelas perguntas que deixa.

O enredo que leva eventualmente ao pai de Janie e também ao passado da mãe, assim como o caderno verde, guiam todos a um mesmo ponto: destino. Até que ponto as escolhas podem ser melhores ou piores, e o que realmente vale a pena quando nem sempre há algo bom para se esperar? E afinal, será que é possível esperar mais quando já se sabe um pouco o que esperar da vida?

As perguntas podem parecer simples, mas a história de Janie também coloca o leitor numa angustiante jornada em Desaparecer. Não há um enredo policial, mas um aprofundamento dramático em direção às consequências do que se decide viver ou fazer.


Book Trailer - Wake (Despertar)
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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Melancholia (2011)


Melancholia utiliza o cenário do fim do mundo como pano de fundo para revelar a natureza humana. Dividido entre duas partes, o filme conta a história das irmãs Justine e Claire.

Justine parece estar prestes a ter o casamento perfeito, com um noivo que aparentemente a ama, num lugar lindo e numa festa bem planejada pela irmã. Porém, durante toda a primeira parte é possível sentir um crescente desconforto. Nada parece agradar a noiva, nada parece suficiente para deixá-la encantada ou feliz. Conforme os minutos passam (e nos remexemos na cadeira), entendemos que Justine faz parte do nosso lado que simplesmente vai com a "maré" - aquela expressão sem força, sem vontade, que um dia acorda e percebe que foi arrastada há muito tempo por caminhos tortuosos.

Na segunda parte, conforme Claire recebe e cuida da irmã, junto com o marido - um cientista, e seu filho pequeno, assistimos a tentativa de manter as coisas sob um certo controle. A imagem do cavalo não conseguindo cruzar a ponte é incrível e parece representar nossa resistência a entrar em certos domínios da mente, ou da transformação. Ao passo que um grande planeta está prestes a colidir com a Terra, Claire sai da posição daquela que cuida e comanda para a de quem precisa desesperadamente crer em algo - mesma que seja em uma cabana mágica. Ter fé, seja para viver, seja para morrer.

Se o filme tem em si alguma mensagem maior, ou uma lição, é uma incógnita. Melancholia é de fato uma daquelas histórias que não entregam o ouro, ou a coisa pronta... Ela se apresenta aos poucos, como uma estrela distante tal qual o planeta que se aproxima e finalmente passa por nós, deixando mais dúvidas, angústia e vazio do que certezas.

É certo que a vida de todo ser humano, a menos num aspecto físico, encaminha-se em definitivo para um fim. Cedo ou tarde, acabamos nos defrontando com a inegável e melancólica ideia da transitoriedade de todas as coisas. A impermanência.

No entanto, diante do fim, o que fazer?

As protagonistas do filme se revezam em papéis que mostram vias diferentes, mas a realidade não é exatamente o quanto de tempo nos resta, mas como este tempo é empregado. Não são a quantidade de relações, mas a qualidade destas relações. É possível perceber, por exemplo, que entre Claire e o marido, inexiste uma demonstração de carinho, ou um simples beijo, como marido e mulher. Há uma segurança fria que beira a conveniência, porém que não chega a convencer de que existe felicidade em meio ao grande casarão e seus cavalos.

Por outro lado, Justine abre mão de todas as coisas - do emprego promissor ao marido apaixonado (na interpretação do icônico Eric de True Blood, o ator Alexander Skarsgård). Conforme a festa de casamento se revela um vazio crescente, a mulher se defronta com uma serenidade que beira a melancolia.

Com uma fotografia lindíssima, atuações excelentes, este é um filme desconfortável e se destina àqueles que não tem receio de enfrentar algo mais denso e profundo. A iminência de uma grande tragédia, ou um grande movimento de transmutação, pode também representar o momento extremamente necessário onde precisamos nos sentir livres. Eu diria, talvez, que se trata de uma história sobre liberdade.

Só ainda não pude assimilar a grandiosidade deste planeta chamado Melancholia.


Trailer: Melancholia (2011)
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