quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Falando de Amor

"Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor."
(Vladimir Maiakóvski)

O relacionamento a dois é uma fonte de questões e problemáticas comuns a diversos povoamentos e épocas da humanidade. Ao longo de nossa história, tudo que diz respeito a vivenciar um amor a dois sempre suscitou uma série de eventos e indagações.

Antigamente, o romantismo dizia que somos almas constantemente buscando nossa outra parte, nossa porção gêmea perdida no mundo. Mais recentemente, conceitos como o poliamor descortinam um mundo de possibilidades (ou impossibilidades) sobre viver uma relação amorosa não apenas com uma, porém mais de uma pessoa.

Ao longo da minha trajetória pessoal e profissional, tenho pensado um pouco e lido materiais muito interessantes sobre o assunto. Nomes como Rosana Braga (www.rosanabraga.com.br) e Regina Navarro (@reginanavarro), tem se debruçado sobre a história e contribuído muito quanto ao modo de enfrentar os relacionamentos.

Num mundo onde tudo é automático e se exige rapidez e agilidade, perdeu-se um pouco da paciência de conhecer e reconhecer o outro. Ao mesmo tempo, a facilidade para novos contatos, também abriu espaço para novos modos de estudar novas possibilidades amorosas, trocar antigas e até mesmo exercer a infidelidade.

Independente da orientação sexual, idade, raça, ou o que quer que seja, hoje convido você a pensar um pouco sobre alguns conceitos que acho importantes para uma boa convivência entre você e seu amor.


O amor é um sentido

Valcapelli em seu livro “Amor Sem Crise” reflete que o amor é um tipo de sentido, assim como nossa visão, audição, paladar, olfato e somestesia. Para ele, o amor é algo que desenvolvemos em nós mesmos e cresce à medida em que nos permitimos amar o outro.

Nesta teoria, o amor é um acontecimento todo seu, um tipo de energia. Pelo amor acessamos o melhor de nossas almas: ficamos alegres, nos dispomos a ajudar o próximo, distinguimos caminhos mais felizes para a vida e resgatamos a fé. Portanto, quanto mais você exerce o amor, mais você amplia sua possibilidade de se sentir integrado ao mundo e conhecer um pouco mais do lado positivo de viver.

Estar centrado é um ponto importantíssimo seja para conhecer alguém especial ou continuar ao lado dessa pessoa. Carl Gustav Jung considerava que o encontro entre duas pessoas em contato com seu Self (sua essência, seu jeitão próprio de viver e fazer as coisas) e sua jornada de individuação, assemelhava-se a uma brincadeira – algo bom e gostoso.

O amor direcionado a si mesmo também não foge a esta regra. Um caminho ótimo para amar mais a si mesmo é passar a imprimir suas qualidades, sua “marca”, naquilo que você faz e é. A autenticidade confere prazer, e está próxima da honestidade – importante entre casais.

Enquanto você for você mesmo, sem se confundir ou viver a vida do outro, e o outro agir do mesmo modo, as chances do interesse se manter vivos são maiores, assim como o prazer de estar junto também. Mas lembre-se, a fonte do amor, está em você mesmo, em sua capacidade, e não no outro, embora seja o outro quem a desperte.


O sentimento em 1º lugar

Ao longo da convivência, muitas vezes começam a surgir as incompatibilidades e os pequenos atritos. Você provavelmente já passou ou presenciou a tradicional cena dantesca do casal de namorados no supermercado sábado à noite, que discute da entrada à saída depois do caixa.

Muitos casais colocam os problemas ou as queixas da relação em primeiro lugar, quando o sentimento deveria ser aquele no topo. Sempre que algo assim assume o primeiro lugar, o amor se torna secundário e entram em cena os jogos, as brigas, as disputas e tudo que acaba servindo para machucar e atingir o outro.

Lembre-se: o sentimento de amor vem de você. O outro, independente dos votos e das promessas, não tem obrigação de estar com você para sempre. O amor que você sente é tudo o que tem, então se esforce por estar seguro do que sente. E vivencie o presente ao lado de seu amor como aquilo que ele é de fato: um presente.

Sempre que as irritações apagarem o sentimento de amor, permita-se um tempo sozinho. No xamanismo a jornada do urso nos ajuda a nos centrarmos em nós, no que sentimos e no que é essencial, e deixar sair tudo que não é necessário e ficou acumulado.

Procure em você mesmo o amor que sente. Se você é capaz de identificá-lo, e também de se sentir amado pelo outro, e isto ficar em primeiro lugar, todo o resto estará em segundo. Em nome do amor, do desejo de estar com o outro, fica mais fácil negociar e até mesmo respeitar.

Às vezes ficamos tão envolvidos nas brigas e mágoas que qualquer pequena pedra se transforma em uma montanha entre nós e o outro.


Relação é troca

Ao se relacionar com um(a) parceiro(a), você está embarcando numa via que a priori deve ser de mão dupla. É desgastante quando apenas um dos lados assume a responsabilidade pelo casal, seja em qual for o sentido. Quando uma das partes se apaga a outra parte entra em desarmonia, e afinal, onde fica a presença do outro?

Tenho observado que muitas questões a dois tem raízes na falta de capacidade de negociação, e principalmente na falta de diálogo. As pessoas podem falar muito, discutir muito, e conversar pouco – trocar pouco. Há um certo grau de flexibilidade necessário a ouvir e a procurar compreender a pessoa que está a seu lado, e a quem você ama.

Quando as pequenas coisas vão se acumulando no não dito, ou no não resolvido, você estará alimentando um vulcão que cedo ou tarde explodirá e aí pode ser que você ou a outra pessoa digam coisas desnecessárias, e se machuquem. Por isso é bom ter o espaço e a abertura de ser honesto e franco, e saber que se pode ser, sem ser condenado.

Sempre que a barra pesar, coloque-se o desafio pessoal de sentar para conversar. Novamente, um preceito xamã norte-americano diz que é preciso “dizer a verdade sem acusar ou julgar”. Pode ser difícil, mas vale muito a pena. Só assim se abrem portas para que você e o outro estejam à vontade em resolver as questões, ou então aceitar os limites um do outro.

Novamente, pode ser que uma das partes se doe mais. Cuidado! É aqui que o comodismo pode acontecer... Uma relação saudável envolve uma troca de carinho, uma troca de cuidado, uma troca de palavra. Dar e receber, nem um e nem outro unicamente. Isso gera prazer e ajuda no nosso autoconhecimento.


Acolher a alma do outro

Nascemos e crescemos com crenças, convicções e uma série de pré-conceitos que são colocados em cheque diante do outro, de seu mundo e sua história e cultura pessoais. Na fase da paixão, varremos um pouquinho pra baixo do tapete as ranhuras que teimam em manchar a imagem ideal do ser amado. Essa fase passa.

Há algumas semanas, minha mãe me surpreendeu com sua teoria de que é preciso acolher a alma do outro. Vamos repetir: acolher a alma do outro.

Abraçar, transar, afagar, tudo isso é fisicamente possível e acessível. Mas é impressionante como é muito mais difícil acolher o outro pelo que ele é. Nossa pequenez, nossas neuroses e dificuldades interiores, muitas vezes colocam a raiva diante do momento em que o outro mais precisa da nossa confirmação e do nosso apoio.

Aqui entra um pouco dos "Ingredientes para o Amor" de que falamos na outra postagem (clique aqui): confiança, admiração e respeito.

Você sente que o outro confia em você? Sente que ele(a) te admira? Sente-se respeitado?
Você confia no seu parceiro? Consegue o(a) admirar? É capaz de respeitá-lo?

Se o não surgiu em alguns desses pontos, é bom refletir um pouco.


O apoio terapêutico a dois

Quando os casais entram em crise, é difícil ouvir falar dos que procuram a terapia juntos. Normalmente recorrem à família, amigos ou mesmo às instituições religiosas. Mas o caso é que existem profissionais treinados, qualificados e habilitados a ajudar os casais que apesar do amor não encontram um modo de estarem juntos de um modo melhor.

É bastante comum que uma das duas pessoas acabe procurando sozinha o apoio, quando já se sente suficientemente incomodada ou ainda quando o outro lhe pressiona, como por exemplo num caso de ciúme doentio. Porém, acredito que a presença do outro é necessária mesmo quando ele não é o foco da terapia. Afinal, a relação é uma troca.

Dentro do campo da Naturologia existem florais que trabalham a harmonização do casal, e as duas pessoas o tomam. Também podem ser elaboradas práticas que envolvam tanto a avaliação da relação, e seus pontos frágeis, como estimular no sentido de obter uma saúde melhor a dois. Ainda não conheço colegas que trabalhem nessa área, mas acho que seria um trabalho interessantíssimo!

Se você está lendo este texto e tem experimentado um tipo de desconforto que não está sendo resolvido, considere propor a seu parceiro esse tipo de aventura. Além disso, tão terapêutico quanto o terapeuta pode ser (com o perdão do trocadilho), é preciso às vezes resgatar os programas clássicos de quando a dupla se conheceu – por que não voltar a sair, ir ao cinema, fazer um jantar, ficar só sem os filhos, viajar? É algo muito positivo por si só.


A hora de saber sair

Acho muito elegante quando uma pessoa sabe o momento certo de sair.

Como comentei no início do texto, hoje em dia tudo é muito fácil, rápido e acessível, e isso se confundiu um pouco com nossas expectativas diante dos relacionamentos. Basta dar uma olhada no índice de separações, ou então na rotatividade da galera.

De qualquer modo, minha colega Naturóloga Virgina Maura sempre dizia que enquanto o amor ainda existe, ainda não acabou – um conselho da mãe dela também. Enquanto um ainda tem o sentimento pelo outro, acredito que se deve buscar alternativas e soluções para o relacionamento amadurecer (outra palavra importante).

Se apesar do amor e apesar das tentativas nada deu certo, aqui entra o trabalho de força e de maturidade. Espero que não seja o seu caso, mas se o momento vier, seja aos 20 ou aos 80 anos, faça algo por você mesmo como um conselho pessoal meu: esteja seguro de ter dado o melhor de si e de ter tentado tudo que podia de acordo com sua capacidade.

Embora não se possa mudar o outro, senão talvez pelo exemplo, podemos mudar a nós mesmos. Respeitando o desejo do outro, esteja com ele e tente até onde você achar saudável, ou os dois. Engajar-se no que é certo é uma garantia de paz de espírito quando as coisas eventualmente ficarem estremecidas.

Mas não force um momento antes do outro: o momento de tentar ou o momento de partir. Viva-os no tempo certo, e com a energia certa, sem confundi-los.


Conclusão

Bem, depois dessas pequenas reflexões, posso apenas dizer uma coisa que sempre costumo frisar: o amor é para os fortes.

Só quem já amou sabe que na vida a dois sofremos, sentimos medo, nos deparamos com nossas inseguranças e limites, e isso às vezes é desgastante. Por um lado podemos chorar, e por outro, aceitar essa oportunidade de crescimento. A relação a dois é uma das maiores portas para conhecer a si mesmo e aprender o que é preciso transformar.

Eu espero que você seja corajoso a ponto de embarcar na deliciosa aventura chamada amor!

E que estas linhas tenham lhe trazido algo para refletir.
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