“Não vou a lugar nenhum. Passarei o resto de minha vida na casa da montanha... com você.”
(Francis, o cavaleiro do Rei)
O dinheiro não é o problema, nem a solução.
Oscar é o filho único de uma família tradicional no ramo da construção. É para a casa da montanha que o garoto vai com seus pais após anos no internato, a fim de passar algum tempo antes de concluir os estudos na cidade. O que ele não esperava é que reencontraria Francis, o cavaleiro, aquele que na infância fora ali seu melhor amigo... E parte da inesquecível recordação de um primeiro beijo.
Este é o início de A Casa da Montanha, uma instigante trama tecida pela escritora Giselle Jacques e publicada pela Editora Escândalo (clique aqui).
O livro aproxima o leitor de cada um dos personagens principais, revelando seu mundo interno, suas intenções e suas dúvidas. A ambientação fiel da cena homossexual e cultural dos anos 70-80 se traduz também nos detalhes: Giselle nos faz construir uma imagem mental de cada lugar, cada cena, com sua descrição detalhada na medida certa – sem exagerar, sem quebrar o ritmo.
Lendo sobre Oscar, Francis, e mais tarde Daniel, é difícil refletir apenas sobre a relação entre preconceito e valores, tradições... A passagem do tempo que acompanha toda uma vida dos personagens é fala da natureza humana: sonhos, esperanças, sensação de onipotência, as limitações, e por fim quando nos sentimos (e até nos tornamos) cansados diante de tudo.
Minhas passagens preferidas com certeza tomam parte na descrição entre os carinhos de Oscar e Francis, as singelezas do relacionamento. Algumas outras são os diálogos entre a mãe de Oscar e ele (confesso que até interpretei alguns). O desfecho também é inesquecível. Não faltaram momentos em que os olhos se encheram de lágrimas.
Entre as páginas do livro também convivemos com Julia, que é a narradora e filha de Oscar. Confesso que de início a linguagem culta que ela me fez pensar que podia se tratar de um romance de época, algo antigo. A meu ver, quando Oscar deixa seus escritos e materiais que são organizados e viram “romance” através dela, ele não está só deixando uma memória pessoal, mas a grande história da própria linhagem dela... A verdadeira origem de Julia que transcende os papeis biológicos da mãe e do pai na “produção” de um novo ser. Porque afinal ela, é sem dúvida, a princesa e a filha da Casa da Montanha.
Quando finalizei a leitura tive uma urgência que eu tive poucas vezes: de querer saber mais. De entender melhor, ver detalhes da história, os bastidores, o processo de criação... Essa obra te deixa tão íntimo do triângulo, que te faz sentir parte dele, e quando acaba te deixa solto – desejando saber mais. E como todo bom triângulo começa a dois, se torna três, e um dia resta um.
O personagem com o qual mais me identifiquei foi Francis. Em alguns momentos me vi em seus gestos, seus interesses, em sua admiração por Oscar, e em suas escolhas... Acho que diante do peso de todo um mundo, possivelmente acabaria trilhando um rumo parecido com o dele - se é que já não trilhei.
Eu recomendo fortemente a leitura, e espero ansioso por mais produções de Giselle Jacques que já tinha me tocado com sua participação em Homossilábicas (clique aqui). Apesar de a Editora Escândalo seguir uma linha direcionada à homoafetividade, A Casa da Montanha fala a todas as pessoas e prende a atenção porque é uma excelente história. Ela tem a força de nos fazer sentir sua presença, partilhar sua existência, e sentir saudade em seu ponto final.
Por alguns dias, eu estive na Casa da Montanha.
De algum modo, uma parte de meu coração permanece por lá.
Eu recomendo fortemente a leitura, e espero ansioso por mais produções de Giselle Jacques que já tinha me tocado com sua participação em Homossilábicas (clique aqui). Apesar de a Editora Escândalo seguir uma linha direcionada à homoafetividade, A Casa da Montanha fala a todas as pessoas e prende a atenção porque é uma excelente história. Ela tem a força de nos fazer sentir sua presença, partilhar sua existência, e sentir saudade em seu ponto final.
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