domingo, 9 de setembro de 2012

A Casa do Amor

"Lost in the House of Love", Sandra Janes Suleski.

Então você acha que eu, euzinha, 
vou deixar de amar 
ou levar abraços 
ou escrever uma cartinha colorida 
ou dar um presente e ligar no meio do nada 
ou amarrar nesta árvore um laço de fita 
ou esconder poemas em sua casa 
ou desenhar um mapa na minha barriga 
ou plantar um girassol na janela 
porque você já não me ama mais? 
E o que tenho eu a ver com isso, 
se você já não me ama mais? 
(Rita Apoena)

Por mais uma indicação da minha prima Mônica Lucena (praticamente minha biblioterapeuta), tive a grata chance de ler “Enquanto o Amor Não Vem” de Iyanla Vanzant (clique aqui). A autora compara nossa jornada em busca do amor verdadeiro a uma viagem de mudanças e subidas entre o porão e os andares de uma casa, até chegar ao sótão.

Não é um livro chato e denso, mas é um tipo de leitura que pede anotações e reflexões – que são bem úteis. Entre relatos de casos que conhece, experiências pessoais, e análise de cada canto, Iyanla nos leva às verdades sobre o que é amor, o que não é, e especialmente para que servem as crises conjugais e os períodos de solidão.

Enquanto você espera, nesse “meio-tempo” vamos dar uma olhada nos andares dessa casa, e como limpar e organizar cada um deles. Nossa bússola é a mente, e o mapa o coração. Muitas vezes jogamos o mapa fora e nem sabemos onde queremos chegar, e aí vamos despencando ladeira a baixo.


O Porão: Disposição


Aqui tudo está escuro e sujo. Reina a confusão e a falta da autoestima. Reagimos automaticamente de acordo com nossa personalidade: de modo passivo ou agressivo. As raízes de nossa existência a partir da gestação, os anos de infância, os modelos próximos, vão se repetindo sem que possamos perceber e nos trazendo dor e desconforto.

Aqui eu sei tudo que é esperado de mim, mas não sei exatamente o que eu quero. Também não percebo que existe alguma coisa errada comigo. Não sou feliz, e não faço a menor ideia do que posso fazer pra ser. É o lugar da infelicidade, da culpa, da acusação, do martírio, da confusão, e da síndrome do “por que eu?”. O problema são os outros, ou fomos amaldiçoados.

Sair desse tumulto exige um equipamento chamado “disposição”. Transformar o padrão passivo e agressivo em ativo e receptivo. Dispormo-nos a limpar esse porão, e olhar para nós mesmos, mesmo sem saber o que fazer - apenas reforçando a intenção. Automaticamente começamos a ser guiados para cima.


O Primeiro Andar: Verdade 


Aqui começamos a desconfiar de que fizemos algo errado, algo que contribuiu para os problemas atuais ou nos relacionamentos passados. Contudo, ainda não sabemos exatamente o que tem de errado. Surgem os questionamentos! 

O produto de limpeza eficiente nesse andar é a “verdade”. Ela neutraliza o medo, a fantasia, os padrões inconscientes que eu repito. Começamo a me perguntar o que estou pensando e o que estou sentindo nos momentos em que as coisas vêm. E principalmente: assumo a responsabilidade sobre isso. A responsabilidade nos ajuda a descobrir o que fazemos e os motivos, e aos poucos isso nos revela por que entramos nesse meio-tempo.

É o momento de começar a ser verdadeiro com o que sentimos, e encontrar modos de expressar. Com a visão do que fizemos, de nossas dificuldades, encaramos os medos porque descobrimos nossos comportamentos viciosos. Aqui eu já sei o que tem de errado, e ainda não faço a menor ideia do que preciso fazer! Só sei que sendo honesto comigo e com o outro - sem acusar ou julgar, darei mais um passo.


O Segundo Andar: Renúncia e Perdão


Aqui temos plena consciência de que precisamos ser curados. Sem ficar com o peso da culpa, sem nos fazermos de vítimas. Aflora o desejo sincero de fazer algo em relação a isso – e sem sabermos o quê, entramos na busca por respostas e informações: livros, palestras, terapia, conversas, etc. A ansiedade é curar-se logo.

Esse é o momento em que pisamos em ovos, ficamos nos policiando no medo de que faremos algo errado, ou que cairemos nas mesmas situações de novo. Mas é aqui que nasce a grande lição: não existe nada de errado com você. E nem com os outros. Você simplesmente não estava conseguindo o que queria, mas estava descobrindo o que não queria.

O detergente do segundo andar é a renúncia. Abandonar os velhos hábitos, mudar de ideia, voltar atrás, assumir os erros, ser humilde... Contudo, a renúncia vai funcionar bem melhor se eu e você adicionarmos uma boa dose de "perdão". Fiquemos aberto a escutar, realmente ouvir o outro, mesmo que seja desagradável ou desconfortável o que ele pensa ou diz. Não precisamos estar certos, vamos tirar esse peso de cima de nós.

Em nome do amor escolhemos não repetir as mesmas coisas. É o ponto de transição.


O Terceiro Andar: Confiança e Paciência


Aqui eu já sei o que tem de errado, e já estou ciente do que preciso fazer a respeito disso. Os testes começam a aparecer para verificar se estamos aprendendo a lição. Precisamos confiar em nós mesmos, naquilo que viemos aprendendo e desvendando sobre nós. Haverá a tentação de desistir. 

Você passa por tudo que aprendeu e achou que tinha a ver com você, da infância à idade atual. Vai jogando fora, tentando mudar. Dá vontade de ficar emburrado, gritar, voltar a tudo como era antes. É preciso paciência porque tudo vai passar. E o segredo disso é o amor.

Você começa a sentir o amor por si. Quanto mais verdadeiro e honesto for, mais amor sente; quando mais renuncia e perdoa, mais o amor entra. Quando menos esperar se apaixonará por si e por sua vida. E aqui é que o amor começa a transbordar de dentro pra fora, e às vezes conseguirá ajudar alguém com sua pequena ou grande experiência na casa do amor.

Suas mudanças vão afastar amigos, e trazer novos. Encerrar situações e ressiginificar outras. Há um período de solidão que antecede um novo estilo de vida. Aceitação de si mesmo, apoio a si mesmo, amor a si. Quantas vezes você se achou indigno de amor por se sentir acima ou abaixo do peso? Por ser diferente ou muito comum? Isso tudo é um julgamento interior, e só mostra o quanto você consegue ser mais compreensivo com alguém de fora, do que com essa pessoa maravilhosa que mora aí dentro.


O Sotão: Amor Incondicional

"Ghost in the Attic", Amy S Turner.

No sótão somos capazes de ter pensamentos, atitudes e fazer escolhas amorosas. O amor incondicional é fácil de entender. Imagine alguém que ama muito: se te dessem a seguinte opção – essa pessoa morrerá ou será muito feliz se nunca mais falar com você, o que escolheria? Se você consegue escolher que ela esteja feliz sem pensar duas vezes, o desapego já começou a viver em você. É o amor em sua forma pura: aceitação, doação, ânimo.

Os princípios do amor segundo a autora são a verdade, a confiança, a paz, a aceitação, o perdão, a compreensão. Quando você briga, discute, xinga e cobra, está apenas afastando o outro, e evitando olhar aquilo que está em você, suas próprias questões. O outro é alguém que nos mostra quem somos. Amar é compartilhar o amor. Quanto menos amor houver por si própria, mais difícil será superar qualquer tipo de crise ou ter uma relação saudável. 

A realidade é que nos aproximamos das pessoas que nos ensinam a enxergar o que falta para que nos amemos. Os problemas não são os outros, estão em nossa percepção limitada. Ninguém é culpado, todos querem acertar e ser felizes. Mas a maioria ignora que em si mesmo é preciso buscar as causas dos conflitos. O amor verdadeiro não é consertar o outro, nem a si mesmo. É encontrar este caminho pequeno para dentro de si, de juntar todos os pedaços, e colar cada um com afeição.

No sótão também nos tornamos aqueles capazes de ensinar e transmitir aos outros o que é o amor através de nossa simples vivência. É quando nosso cálice transborda!


Conclusão

Iyanla Vanzant, a autora.

Para mim, o livro reflete a ampliação da consciência, o porão é o inconsciente, o sótão a iluminação. Essas partes da casa não necessariamente falam só sobre amor a dois. Quando pensamos sobre como agimos no amor, também estou certo que esse padrão de agir se reflete no modo como lidamos com dinheiro, profissão, amigos, etc. Por isso selecionei algumas perguntas que a autora faz e não se surpreenda se você encontrar respostas semelhantes pra temas diferentes.

Sente-se em algum lugar onde você possa se concentrar. Acalme a mente, sinta-se presente no lugar. A seguir procure se interiorizar e peça a si mesmo toda honestidade e verdade. Então comece a responder uma a uma, sem pressa, volte quando precisar, e guarde consigo. Mentalize sua situação amorosa, seu relacionamento, o que quiser.

1) Onde eu estou?

2) Como cheguei até aqui?

3) Quais foram as escolhas que eu fiz, ou o que deixei de fazer?

4) O que eu estava tentando realizar ao fazer estas escolhas?

5) O que eu realmente quero?

6) Como posso criar essa experiência?

Não se surpreenda se as respostas de situações diferentes te conduzirem a um lugar comum. Esse é o seu desafio de vida. Abra-se, esteja disposto a mudar.

Por fim, uma reflexão rápida nas palavras de Iyanla:

“As experiências do terceiro andar não são sobre o certo ou o errado. São sobre força e coragem. Não são sobre manter a imagem ou o ego. São sobre estar vulnerável. O amor incondicional nos torna vulneráveis às experiências e às pessoas. Se não estivermos vulneráveis, não poderemos nos abrir. Se não nos abrirmos não poderemos conhecer o amor nas muitas formas que ele assume.”

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Oração - A Banda Mais Bonita da Cidade

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