Hoje, 23 de março, comemora-se o
Dia do Naturólogo (
clique aqui). Já é o segundo ano que comemoro a data como profissional formado e como muitas coisas nesse mundo, meu pensamento e impressões sobre a Naturologia têm se desenvolvido e evoluído. Hoje resolvi escrever às pessoas em geral, aos estudantes e aos Naturólogos já formados, sobre alguns temas importantes para nós e para essa área do conhecimento.
Se você tiver força e paciência para ler, convido-o a me acompanhar neste texto.
Se você tiver a vontade, mas não a paciência, pode pular pelos itens e ser feliz.
A seguir:
- Naturologia
- Formação
- Mercado de Trabalho
- Associações
- Horizontes
- Conclusão
Naturologia
Muitas pessoas leigas ao ouvir a palavra Naturologia pela primeira vez deliciam-se com a visão imaginária de praias nudistas, comunidades alternativas ou um desfile de plantas exóticas e alucinógenas. Ao serem melhor informadas, contudo, elas balançam a cabeça e sorriem educadamente.
A despeito da boa vontade dos fóruns conceituais, ainda é bastante difícil explicar de modo
prático o que faz a Naturologia. Acredito que muitos dos problemas iniciais da profissão tenham vindo dessa indefinição. O interessante é que ao procurar o curso nos guias e propagandas universitárias tudo parece seguro e consolidado. Mas durante a formação as dúvidas só se fazem aumentar.
Um dos desafios do porvir é realmente um pensamento prático e
objetivo.
Por tradição, percebo os candidatos a Naturólogos, e Naturólogos, como pessoas cheias de boas ideias e intenções, mas não tão participativas e difíceis de chegar a um consenso. São necessárias muitas e muitas horas, e talvez pela tendência de ver o indivíduo como único, tudo é considerado um tanto subjetivamente e relativizado.
Hoje, via de regra os Naturólogos trabalham com a visão integrativa, isto é, ao tratar uma pessoa procuram perceber que relação existe entre a queixa dela e os acontecimentos em seu corpo, em suas emoções, em seus relacionamentos, em sua energia, etc. A partir de uma avaliação vão sendo oferecidas práticas naturais que sejam mais adequadas àquela pessoa naquele momento - por isso o tratamento é muito personalizado, quase
customizado (pra usar um termo da moda).
Mas existem Naturólogos por aí atuando em empresas, outros trabalhando puramente com a estética, ou então focados em um tipo de sistema de Medicina Tradicional (como a Chinesa e suas modalidades de cura), ou focados em um tipo de prática. Existem ainda os que trabalham só no paradigma biomédico, focando apenas nas doenças com seus sinais e sintomas.
Com toda essa variedade, a profissão tem sido progressivamente divulgada. E agora somos nós Naturólogos que já estamos sendo surpreendidos quando falamos qual é nossa profissão e a pessoa nos diz que acha legal e sabe do que ela se trata. Ufa!
Formação
Atualmente existem duas Universidades que oferecem o curso de nível superior em Naturologia reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC), com duração aproximada de 4 anos e meio e título de Bacharel em Naturologia. Pela divulgação dessa "nova" área de conhecimento, tem surgidos cursos de formação, extensão, e outros que fazem um empréstimo do termo Naturologia para designar suas atividades.
A formação do Naturólogo, como explicado, tem pouco a ver com praias de nudismo, comunidades alternativas ou plantas exóticas e alucinógenas. Ao longo da minha faculdade foram horas e mais horas de estudo de biologia, fisiologia, anatomia, neurofisiologia, farmacologia, entre outras disciplinas comuns à formação de qualquer profissional da área da saúde, somando-se a isso psicologia, antropologia, sociologia, etc. Sem esquecer as disciplinas específicas da formação do Naturólogo com suas práticas vivenciais, e as terapêuticas e sistemas de diagnose e de Medicina Tradicional. Em alguns momentos pensei que não daria conta diante dos artigos por fazer.
Além disso, também tive o triste pesar de ter presenciado situações aterradores em sala de aula onde, por exemplo, alguns professores do curso - grande parte não-Naturólogos na época -
avaliavam projetos de Naturologia sem a menor consciência do que ela se propunha. Em outros casos, alguns professores não se mostravam seguros quanto às bases das terapias e meios de diagnose que eles próprios lecionavam. Situações delicadas, sem dúvida, e pouco benéficas para desenvolver certezas ou confiança.
(Devo ressaltar, porém, e ironicamente, que a maior parte do que sei sobre Naturologia em si, aprendi com professores não-Naturólogos, mas que tinham a Naturologia muito clara em suas almas do que alguns formados na área.)
O lado bom de tudo isso é a quantidade de experiências e lados que se pôde vivenciar na formação. O lado negativo é sempre ter algumas perguntas persistentes e que nem sempre são respondidas adequadamente, como: Por que isso funciona? O que isso tem a ver com Naturologia? Afinal de contas, qual é o conceito de Naturologia (meu Deus vou ficar louco)?
Em função disso, a formação do Naturólogo envolve muito raciocínio, e certamente a elaboração pessoal de teorias, técnicas e modos de trabalhar. Vem daí também a necessidade do estudante vivenciar o processo de atendimento, a "Sessão de Interagência", do lado de quem é recebido pelo Naturólogo - quer dizer, ser Interagente. Isso ajuda a compreender o quão profundo pode ser o trabalho em Naturologia, a captar as sutilezas dos sentimentos que só estar na jornada pode revelar, e depois ter toda essa bagagem que ajuda a identificar no outro o que está se processando nele. Naturólogos formados costumam dar um bom desconto quando atendem estudantes de Naturologia.
Creio que com toda experiência e os estudos que tem sido desenvolvidos - principalmente pesquisas sobre atuação dos Naturólogos, as grades precisem de uma revisão e readequação ao Mercado de Trabalho. Não se trata de deixar para trás a proposta da Naturologia, da visão integral, da interação, mas de fazê-la amadurecer na sua essência e principalmente, por favor, confiá-la a bons Mestres que sejam de fato
educadores.
Creio, ainda, que a inserção do curso de Naturologia em Universidades Federais seja uma questão de tempo, e uma necessidade tanto para quem quer estudar e se depara com os altos valores da mensalidade, como para consolidar a oferta deste ensino.
Mercado de Trabalho
Aos candidatos e aprendizes de Naturólogo, talvez essa seção interesse mais.
Um formado em Naturologia precisa ter um espírito
empreendedor. Ou seja, estar disposto a
criar algo, um negócio, lutar por ele e aprender a mantê-lo. A outra opção é se inserir em uma clínica, onde na maioria das vezes pagará um aluguel ou uma porcentagem do seu atendimento, e terá o espaço, mas nem sempre a
divulgação do serviço. No final das contas cabe sempre um empenho no sentido de vender seu trabalho.
Há uns anos atrás houve um movimento grande de interesse por tudo que era dito "natural", e hoje isso está mais sossegado porque tem se tornado parte da vida das pessoas tanto quanto usar a Internet. Afinal, o acesso ao conhecimento para uma vida natural tornou-se disponível, e seus produtos acessíveis (nas lojinhas e até mesmo mercados). Confesso que das pessoas que atendi conheci poucas que vinham pela premissa do natural... A maioria vinha mesmo com seus sofrimentos e com um interesse maior de tentar algo complementar porque o tratamento convencional estava limitado ou não as estava ajudando, ou queriam entender os porquês por trás de suas queixas.
Portanto fique atento quando se diz que a busca pelo natural torna o mercado de trabalho amplo para o Naturólogo.
Continuando, como opinião bem pessoal, acredito que uma formação profissional
anterior ao curso seja um passo vantajoso. Isso te permitirá ter uma sustentação financeira enquanto investe na Naturologia, e afinal de contas dinheiro pra investir nela. Convenhamos: a menos que você tenha uma poupança bem gorda, vai querer trabalhar e ter um retorno das parcelas que você pagou arduamente pelo seu diploma. Portanto, plano de negócios mental, algo essencial (rimas financeiras).
Um outro movimento comum é a Especialização dos Naturólogos e sua inserção em áreas de Mestrado. O estudante pode se beneficiar deste esquema cursando uma especialização desde seu último ano, e buscando disciplinas isoladas nos Mestrados para se aproximar do meio de pesquisa e da área que deseja pesquisar. Ambos podem aumentar sua chance de atuação neste mercado: a Especialização por algumas terem um mercado já consolidado e permitirem concursos; o Mestrado pela possibilidade de carreira acadêmica ou de pesquisa.
Embora, como disse, esteja mais fácil cruzar com pessoas que saibam o que é Naturologia, a profissão ainda não teve seu expoente de sucesso. Como se diz, não caiu na mídia uma boa história de sucesso, ou ainda não há um Naturólogo extra-famoso ou que atenda uma grande personalidade . Isso também é questão de tempo. Mas até lá, ao formado que saiu de sua cidade e de repente pensa "e agora?", é preciso um bom planejamento de trabalho e divulgação, além de uma boa dose de paciência e persistência para se fazer conhecer e fazer compreender seu trabalho.
Uma outra opção mais recente e que tem recebido apoio das Associações é a inserção do Naturólogo no Sistema Único de Saúde (
SUS). O profissional formado pode propor à Secretaria de Saúde e aos órgãos públicos municipais que estão envolvidos com a saúde da população, do trabalhador, etc. um contrato de experiência ou abertura de um concurso - claro, depois de apresentar e muito bem a profissão. Mas não vou me alongar nisso: sugiro o contato direto com as Associações para saber mais e receber o amparo necessário.
O lado bom do trabalho na saúde pública é o salário
fixo, assim como é possível na área acadêmica como professor e pesquisador. Também vale mencionar o filão de Spas para um atendimento mais voltado à estética e à promoção de saúde.
Associações
Temos atualmente duas entidades de maior importância dentro da Naturologia no Brasil, e isso por si só já é um pouco problemático: Associação Brasileira de Naturologia - ABRANA(
clique aqui), e Associação Paulista de Naturologia - APANAT (
clique aqui).
A quem interessar possa, a profissão de Naturólogo ainda não foi reconhecida por Lei e isso impede a existência de um Conselho. É o Conselho quem fiscaliza e toma decisões importantes quanto ao exercício profissional, o código de ética, filiação, bases de remuneração, entre outros. Isto está em trâmite e na prática é preciso que um deputado apresente um Projeto de Lei sobre o reconhecimento, que depois será votado em outras instâncias até receber um canetaço da Presidente Dilma (que assim seja).
Imagine você, estudante, ainda pouco familiarizado com tudo isso, e aí então vê aquela palestra legal sobre a necessidade da representatividade junto à Associação. Mas,
hey,
wait! Existem duas! Pois é.
A despeito do quanto a
ABRANA e
APANAT têm produzido individualmente, está claro que num primeiro momento, principalmente dado os números de associados, teria sido bem mais interessante que houvesse apenas uma Associação com escritórios representativos em outros Estados para encabeçar as lutas da profissão.
Seja pelo lado financeiro, seja por outros motivos, às vezes um Naturólogo ou estudante se vê na necessidade de escolher. A lógica às vezes é simples: moro em SC, berço da ABRANA, logo me associo a ela; moro em SP, berço da APANAT, logo me associa a ela. Também levando em conta as vantagens e promoções de ambas que ser localizadas às suas regiões de origem.
Um problema nesse sentido, por sinal, tem sido o estímulo à associação de novos membros. Independente da luta pela consolidação da profissão, percebe-se também muitas vezes os desabafos pela falta de comprometimento dos membros, do "estar junto" ou "pegar junto" à diretoria.
Apesar disso foram realizados nos últimos anos quatro Congressos Brasileiros; está acontecendo um movimento (extremamente necessário) de maior abertura e transparência das atividades junto ao público, e também as ligações políticas têm aumentado em número e em peso. São passos ótimos quando se sabe dos trâmites burocráticos que existirão dentro da máquina dos Congressos de Deputados Estaduais, Federais e etc. Isso sem falar no projeto proposto para inclusão da profissão Naturólogo na lista do Cadastro Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho (CBO), que por si só já facilitará um tanto a vida dos profissionais ao ser aprovado.
O que eu pessoalmente acredito é que é preciso mostrar mais ao associados, mais do que já é: que eles sejam os primeiros a saber dos movimentos e ideias referentes ao rumo da profissão. Também penso que é preciso não só convencer, mas
cativar Naturólogos e estudantes, com carisma e motivação. Se isso tem sido falho, ou não, não entrarei no mérito. Só desaprovo um pouco um sabor um tanto comercial que às vezes me vem pelo vento, que não me agrada nem um pouco.
Um outro desafio é realmente chegar a um consenso de conceito: afinal, o Naturólogo é um poli-terapeuta? Se sim, a Naturologia em si é um tipo de terapia? Ou o Naturólogo é outra coisa? O que é?
Sempre bati nesta tecla, continuarei a bater até que me haja dedos e uma boa resposta.
Novamente, uma opinião bem pessoal, ao estudante e profissional que me procurassem eu sugeriria em primeiro lugar a associação à ABRANA - pelo seu caráter Nacional e pela necessidade de fortalecer seu corpo de associados. Em segundo, que o membro avalie, opine e participe das atividades de sua Associação (seja ela qual for). Em terceiro, que as ajude com sua rede de contatos políticos e seus conhecimentos, dentro dos limites aceitáveis.
Horizontes
Finalmente, o que imagino e o que vejo para o futuro da profissão?
Sou um otimista e acredito que é uma questão de tempo para o
reconhecimento (perante a Lei e perante a população), a
regulamentação e a
prosperidade do profissional Naturólogo. Mas, por outro lado, vejo que é preciso pensar e direcionar a profissão. Se existe algo além de terapias e técnicas, isto ainda é pouco explorado. É costume o apoio em visões de outras Medicinas, filosofias de cura, etc., mas não há um mergulho na tentativa de explorar um "modo de operação" próprio - a construção de uma visão de atendimento e abordagem terapêuticas próprios do Naturólogo.
Igualmente, tenho visto poucas pesquisas na tentativa de esclarecer os mecanismos de ação das práticas. O que tem sido feito é um exaustivo repertório de tentativas de comprovar que "isso" é bom para "aquilo". Contudo sem um esclarecimento dos mecanismos exatos de ação, não se chegará a um controle seguro do uso dessas práticas, e nem na ciência do seu uso (observar e repetir com o mesmo sucesso).
Soube recentemente caso de um professor que defendeu o avanço dessas pesquisas pré-experimentais de efeitos em detrimento de outras investigando mecanismos de ação. Olha, cheguei me arrepiar ao ouvir, e só me faz ter certeza que a ingenuidade (pra não dizer teimosia) às vezes é bárbara porque beira a barbárie. Isso sem falar nos que enchem a boca pra falar em
Qi mas não admitem que se fale em bioenergia, ou práticas como
Reiki.
Eu acredito que a Naturologia é bem mais do que o que temos visto, e pode bem mais!
Queria poder subir num tablado e falar isso pra todos, fazer isso entrar na cabeça de todos.
Pra mim, o Naturólogo realmente é capaz de juntar as informações das demais áreas da saúde e conferir um
sentido a elas. E também ele é capaz de tratar não só seres humanos, mas vir a tratar os ambientes, animais, e tantas outras aplicabilidades que só a imaginação pode colocar limites. E por trás de tudo isso, é preciso muito estudo, claro, até porque não é só de acertos que vive a Naturologia; mas no mundo da fantasia a perspectiva de erro Naturológico é varrida pra baixo do tapete irresponsavelmente.
Da transformação que aconteceu em mim desde que coloquei os pés na sala do corredor F em 2006-2 até o dia de hoje enquanto escrevo, guardo uma coisa incorrupta: a convicção de que esse conhecimento pode conduzir a uma saúde melhor e colaborar para um mundo melhor. Minha avó que é professora costuma dizer que a despeito de todas as dificuldades atuais da classe, se fosse recomeçar a vida, não teria dúvidas: seria professora de novo. Desejo a todos esse espírito de
vocação.
Conclusão
E por fim, aos que tiveram fôlego de chegar a estas linhas, congratulo pelo Dia do Naturólogo:
estudantes (filhotinhos) e
Naturólogos (colegas). Que possamos ter mais união, clareza de pensamento, e encanto pelas nossas atividades! Que não nos faltem sinais da vida, mensagens a nos conduzir e ajudar este precioso conhecimento para que ele possa se desenvolver ainda mais e crescer ainda mais do que inegavelmente já aconteceu. E claro, possamos todos comemorar muito!
Naturólogos, no dia de hoje ergam suas canetas de cromo, seus potes de argila, seus pinceis, suas plantas medicinais, seus pêndulos, suas macas, suas mãos, e principalmente seus corações (o maior instrumento), para celebrar a vida que nos trouxe a esta profissão. Regozijemos na certeza de um próspero amanhã e em tudo que somos capazes de contribuir, seja no apoio a um amigo no meio da noite, seja no dia a dia do trabalho!
A todos nós, senhoras e senhores,
Feliz Dia do Naturólogo!